O Que Sua Psicóloga Nunca Aprendeu na Universidade

Aprendi muito sobre o ser humano estudando Psicologia e Filosofia.
Mas foi na quebrada que aprendi sobre presença. Sobre potência.

Nas vielas, nas relações e nos silêncios de quem fala com o olhar,
compreendi que estar viva é muito mais do que simplesmente sobreviver:
é resistir, é viver, é renascer a cada amanhecer.

No Humanismo fala-se em tendência à atualização.
Na periferia, isso acontece o tempo todo,
mas não do jeito que os livros descrevem.

A atualização por aqui não é “aperfeiçoamento pessoal”.
É sagacidade. É corpo em movimento. É estratégia para existir com dignidade sem o básico garantido.

A quebrada vive e se desenvolve coletivamente.
Cria laços genuinamente mais fortes do que os sanguíneos.
Há exemplos de parceria e conexão em cada esquina.

Tem barulho, contradição, escassez,
mas também, criatividade, iniciativa, resiliência
e riso solto em meio ao caos.

Tem criança mais desenrolada que muito marmanjo.
Tem adulto que não teve infância.
Tem quem cuida de todo mundo e, mesmo exausta, inventa jeito de seguir.
Tem quem encara a realidade cruel e quem se refugia no campo da imaginação.

Na minha prática clínica, não dá para fingir que a Psicologia é neutra.
Não dá para escutar uma pessoa como se ela não carregasse consigo
o peso (e a força) da sua história, da sua cor, da sua classe, da sua quebrada.

Por isso minha escuta não é formatada.
Ela vem com contexto. Com política. Com afeto. Com autenticidade.

A psicologia que eu pratico nasce das teorias, sim.
Mas é no encontro com as vivências periféricas que ela ganha corpo e verdade.

E aqui preciso afirmar:
nem toda evidência é estatística.

A Psicologia Baseada em Evidências, do jeito que é vendida por aí,
costuma invisibilizar os contextos, os corpos dissidentes,
os atravessamentos de raça, classe e território.

Eu escolhi olhar para outras evidências:
as que emergem das vivências.
Das entrelinhas de uma fala.
Do silêncio carregado de sentido.

Porque o que escuto na clínica não cabe em protocolo.
E porque nenhuma estatística dá conta da potência
de quem reinventa a existência todo dia sendo quem é.

É por isso que, aqui, a escuta é outra. E o cuidado também.

Acredito em uma psicologia que honra as experiências reais e reconhece que a vida transborda qualquer teoria.

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